O famigerado Sebo do Vicente |
O famigerado Sebo do Vicente |
Em certa noite, levado por um desses fluxos de memória involuntários, ele se lembrou do velho amigo Plácido. Dele há muito não tinha notícias. Por onde andaria? Era grato ao antigo amigo. Na escola militar, Plácido dera-lhe uma satisfação incrível: o melhor soco na cara que receberia de um amigo. Foi pura adrenalina. A cabeça tonteou, zonzo ele ficou. Poder-se-ia dizer que vira passarinhos: colibris, bem-te-vis, sanhaços. Sentiu-se como o Coyote ao receber na cabeça a bigorna endereçada ao Papa-Léguas.
Dera o primeiro soco, começando a briga; o segundo veio do Plácido, encerrando-a. Lembrava de vê-lo de costas, saindo, caminhando, magnânimo, certo do nocaute. Ia atrás ou deixava pra lá? Deixou pra lá, porque era o Plácido, era amigo. Briga entre amigo: esporte íntimo e elevado. Amizade só se prova verdadeira quando permanece após umas boas desavenças. Além disso, Plácido dera um cruzado de direita muito respeitável, demonstrara coragem ao bater num amigo.
Não brigar (ao menos uma vez) com um amigo era não ter um amigo. Violência moderada era expressão emocional tão rica, pura e verdadeira quanto um abraço. Devia ser vivida, explorada, manifestada. Por isso, adolescente, ele correra com a faca atrás do primo Tiago. O primo, seu melhor amigo de infância, era sempre o mais forte; então quis dominá-lo.
Também por isso - para dominar– golpeara Ricardo com um chute no íntimo; que o fez chorar, andar torto e recorrer à medicina doméstica que a mãe dominava. Por isso fora para cima do pai, fazendo-se livre da autoridade opressiva, provando que, por ama-lo, não temia lhe dar uns sopapos. Pobre do pai, o triste e alegre pai, a quem amava e continuaria amando... Por isso empurrou a mãe, defenestrou Renata, ameaçou Larissa, deu no Gilberto um soco que lhe arrancou um dente; e, pouco antes de uma crise de choro, trocou sopapos com o Maurício Antunes.
Era um tipo demasiado sensível, com uma expressão de afeto reativa e furiosa, definitivamente marcante; e por muitos era tido como bruto. Camila disse que a culpa era da "Lua em Escorpião" (e finalizou o comentário com um "Valha-me, Deus!"). Ele sabia que sua singularidade era difícil de entender, que tinha ímpeto agressivo e aos outros causava temor. Sendo assim ele procurava, no mais das vezes, evitar o amor, a companhia e o afeto. E na solidão cultivava a violência da palavra crítica, talvez sofisticada, mas não menos violenta.
Dos excessos se arrependia, mas não lhes negava a utilidade. Permitiram aos entes queridos conhece-lo em profundidade, assim aprenderam a amá-lo pelo que ele era - sem enganos e ilusões. Amando-o em essência puderam perdoa-lo, coisa que ele nunca pôde fazer por si mesmo. Ele, vendo-se capaz de tamanho barbarismo contra os queridos, soube-se imediatamente capaz de crueldades inomináveis contra os inimigos.
Fora seu Rito de Passagem.
Fez-se homem ao enxergar no coração a primitiva vocação do animal selvagem. Ferocidade de besta que se compraz na dominação; um partidário do confronto desleal, da humilhação alheia, da opressão sádica. Tropeçara na própria essência tirânica, o talento para pequeno bárbaro, a sensibilidade aguda rapidamente convertida em ressentimento e emotividade tóxica. O mal não vinha de fora, mas de dentro; ele era o mal, ele sabia-se o mal, e pior que isso: ele, as vezes, sentia-se forte ao ser violento. Era inimigo da paz e da prudência.
Teve fascínio e teve medo. Decidiu lutar contra o instinto. Estabeleceu regras. Primeiro, jamais repetir agressões aos entes queridos. Segundo, em qualquer situação, evitar a violência máxima. Terceiro, caso optasse pelo mal, direcionaria-o aos inimigos (neste caso com máxima violência).
Ele, que era um bruto, aprendera que violência pouca aliena, violência moderada educa e violência máxima embrutece. Por isso ouvia o próprio coração e expressava a pequena e média violência; deixava-as sair para vê-las melhor. Vendo-as; elevava a consciência e calculava sua inclinação destrutiva. Calculando, tratava de se prevenir...
Considerava tolos os homens que, tendo em si o mal, nada faziam para conhecer-lhe a extensão ou a profundidade. Como poderia um homem desconhecer seu mais íntimo inimigo? Não, não era correto. Não devia o homem fugir ao mais difícil exercício. Era imperativo medir cada centímetro do próprio coração como o agrimensor mede cada metro do próprio terreno. Era preciso investigar a própria alma, revirar o lixo ali enterrado. Urgente era encontrar primeiro o que é mal, porque está mais baixo e por isso está mais perto. Depois cultivar a melancolia da maldade, provendo-se da vontade de redenção que ela inspira, e daí então procurar, com afinco desesperado, o que há no homem de divino; a alma superior - mais alta, mais bela e mais distante.
Para ele havia neste mundo os homens que por Deus chegavam a Deus; mas havia também – e isto ninguém deveria negar – os estranhos homens que chegavam a Deus pelo Diabo. Deus certamente apreciava os primeiros, porém, como todo pai, era a redenção dos filhos perdidos – o drama maior da vida espiritual-, que mais envolvia e comovia o Criador. Como por água anseia a corsa; pela elevação do perdido anseia o Senhor.
Uma dúvida incomodava. Monstro amoroso que era: teria ele, algum dia, vergonha de seu drama? Por hora aderia ao caminho do meio: nem a vergonha nem o orgulho, antes a contemplação perplexa, a nota ponderada, o estudo minucioso do que carregava na alma. Mesmo o que era treva...
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| Samuel Fernando polemizando |
Há alguns anos eu tive um perfil excluído pela moderação do Facebook. O feice diz oferecer ao usuário um espaço de discurso, mas seu verdadeiro objetivo é monitorar as ações dos usuários para criar perfis de consumo precisos; e, com isso, otimizar algoritmos de escolha de anúncios personalizados. Todos sabem disso, e eu sabia na época, mas quis jogar o jogo perigoso da liberdade de expressão, testar os limites, até porque, ingênuo, eu não esperava o pior. Deu no que deu, e me arrependo, pois havia conversas interessantes no perfil.
Uma delas foi com o professor Adonai Santana, que é um importante físico teórico do país, e discípulo de Newton da Costa, um dos nossos maiores filósofos da ciência. Na conversa perdida, o ilustre professor (que durante a Pândemia escreveu um esclarecedor guia de Matemática) disse que o meu perfil era um dos mais divertidos, e que comentara a meu respeito com sua esposa.
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| John Ramalho: um caso psiquiátrico. |
Outro que disse coisa semelhante foi o meu mestre e amigo Paulo Cesar Santos. Programador, físico, músico e professor de Ciência Política da UFF, nas palavras dele o meu (antigo) perfil faria muito sucesso se o público geral fosse
mais inteligente (disse isso ou algo parecido com isso). Era, de fato, um
perfil bastante irreverente. Meio tresloucado, as vezes de um humor pitoresco, geralmente
maligno, anti-humanista, misantrópico, apaixonadamente anti-sionista, muito politicamente incorreto e as vezes
de uma paranoia quase delirante, palatável apenas às mais altas
mentes. Prova disso é que até mesmo a Natália Sulman, essa modesta musa maior do olavismo, chegou a curtir e comentar
uma minha humilde publicação.
Mas o arauto maior, o grande entusiasta das Más Letras Ramalhescas, aquele que me conduziu ao Olimpo dos Intelectuais e Musas Letradas do Facebook, foi, certamente, o indefectível Samuel Fernando. Biólogo, neurocientista e polímata paulista que, por algum período, engajou-se no mais elevado ativismo cultural que a comunidade letrada da internet tupiniquim já testemunhou.
O perfil do Samuel Fernando – “Samuca” para os íntimos – era a Meca dos Pedantes. Todo mundo que achava que sabia muito (ou que desejava saber muito) acabava chegando lá, e, entre o deslumbramento e a inveja, descobria que o Samuel sabia mais; muito, muito mais.
No que ele postava, e sobre o que ele postava, comentavam físicos, matemáticos, filósofos, biólogos, autistas com hiperfoco em ciências, altos QIs, professores, psiquiatras, psicólogos, neuropesquisadores, literatos, marxistas, olavetes, engenheiros, programadores; gente de todo o Brasil e de fora dele também. Era uma verdadeira utopia de gente articulada, que falava coisas com sentido e com algum (ou muito) conhecimento. E o Samuel, para o meu espanto e prazer, compartilhava, vez ou outra, algumas das minhas postagens. Logo pessoas começaram a me adicionar. Mulheres, inclusive. Era bom. Foi legal. Mas acabou. E acabou mal: com meu perfil excluído.
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| Diagnóstico rápido: "ele é doido". |
Lembro carinhosamente desse período, não apenas por minha pequena popularidade de subcelebridade letrada de alto nicho, mas principalmente pelos amigos que fiz, as pessoas legais, divertidas e inteligentes que conheci.
Gente como o querido Mateus Marcuzzo, engenheiro de software brasiliense e leitor filosófico com um coração nobre e ético, alguém cuja sensibilidade humanista exerce sobre mim um inegável efeito positivo. A Maria Cristina Batoni Abdalla Ribeiro, uma das maiores físicas do país - amiga de figurões como Marcelo Gleiser. Maria tornou-se uma amiga querida, uma fonte de inspiração e de bons conselhos. Cheguei a me encontrar com ela na UnB.
Também o brilhante Stanis Lucksys, um expert em Linux que chegou a desenvolver seu próprio sistema operacional. Autodidata no que quisesse, Stan era também filósofo, músico, intelectual e um talentoso cronista. Amigo querido e cuja identificação foi grande e mútua. Stan cunhou para o nosso grupo de amigos a divertida alcunha de "Os Irresistíveis".
Enriquecia-nos a presença da Isa Murphy, apelidada “Lady Murphy”, uma goiana bela e cativante, melancolicamente solitária, falava francês, apreciava HQs, o gosto musical excelente, alma compatível, flertamos, claro.
Havia também o sempre ponderado, lúcido, filosófico e divertido Marcus Vinícius. Psicólogo erudito, Marcus vive a combater os excessos e equívocos do identitarismo progressista. Por sua prosa bela, sóbria e profunda, considero-o um dos melhores escritores e comentaristas culturais do país. Tinha o Pedro Luiz Borba, de grande pendor argumentativo e estimulante inteligência, com quem travei alguns respeitáveis debates.
E a Carol Sorokin, que namorava o Stanis, mas que eu sonhava em ter para mim, porque era brilhante, linda e amiga. Também a queridíssima Paloma Rangel, de quem eu já falei numa carinhosa crônica e de quem pretendo falar ainda mais em outras. E não posso esquecer da doutora Ana, uma médica autista fascinante, com ouvido absoluto, inteligentíssima, a quem eu gostava de confundir com contradições, ironias e afetações de insanidade. Ela, a bela doutora de olhos hipnotizantes, fazendo o corolário de nossa divertida interação, proferiu a que talvez seja a melhor descrição que já fizeram deste blogueiro. Além desses amigos, havia outros cujo contato era menos frequente, mas de inegável enriquecimento mútuo.
Richard Nixon sorri no inferno..
Compartilho aqui as palavras da doutora Ana, pois até hoje me deliciam e divertem. Disse ela uma frase que, por seu poder de síntese, deverá constar nos comentários dos meus críticos futuros: “John Ramalho é para mentes privilegiadas”.
***
Abaixo, publico um inesquecível presente da Carol Sorokin. Gaúcha e psicóloga formada pela USP, a Carol era também enxadrista, poliglota, musicista e escritora. Sua aparência era tão sublime que ela evitava as fotos. De fato, Carol era praticamente uma sósia da Natalie Portman.
Lembro dela mais pelas ótimas conversas madrugada afora, pela mente afiada e pela foto peculiar do perfil, que mostrava apenas dois pezinhos envoltos em meias de lã vermelha. Mas incluo aqui o fato da sua beleza, que era notável, e que ninguém poderia negar, ou esquecer. Nunca falei disso com ela, nem sequer um elogio, e conto a vocês apenas porque é verdade e ajuda a dimensionar as muitas qualidades dessa moça impressionante. Quando ela cismou de homenagear as pessoas que lhe eram queridas, fui um dos contemplados, e ganhei dela um tocante discurso:
O Homem Que Ri
Que as
pessoas são todas diferentes todos dizem! Todos parecem ter decorado isto como
se fosse a tabuada do um, mas na prática pouca gente compreende o significado
dessa afirmação. Que existem problemas cuja a solução está fora do nosso
alcance, seja na vida pessoal, ou em termos científicos, isso já é algo que nem
todos sabem.
Ele sabe
tudo isto! Ele manja de todas as coisas que não importam para quase ninguém,
mas que na verdade são as coisas que mais importam para quem não é ninguém, é
muito alguém!
E eu
converso com ele e vivo elogiando terceiros e ele talvez não saiba que também
falo dele pelas costas. Todas as suas qualidades! Mas só depois de minuciar
cada mísero defeito, claro...
O que faz
ele especial é que não é vaidoso, soberbo nem invejoso, é um romancista,
filosofista, cronista, psicologista e até letrista, em crise com seu próprio
lado romântico, que ele desesperadamente tenta esconder e não consegue. Mas nem
todos percebem, só nós, os outros românticos. Pois ele é um personagem de um
livro do Victor Hugo com ideias do século XXIII.
Assim, ele
é bem humorado e carinhoso com as palavras. Com as palavras! Não
necessariamente com quem ele as dirige. Tem um ar sedutor, dispendido para com
as meninas inocentes em fóruns de literatura e filosofia, e é do tipo que
escreve cartas e não envia. Depois, ainda reescreve para não reenviar!
Tem um
carisma incomparável e não há quem não fique bravo com tamanhas bobagens
inteligentes que ele fala. O carisma dele consiste em ser belo e imagético, mas
só até certo ponto e até certa hora, depois ele muda de ideia em 180 graus e,
num segundo, já é pela sua voz de locutor de radionovela da extinta Tupi.
E isto tudo
é só um tiquinho, pois eu não conheço ele tão bem quanto eu gostaria, mas é uma
brincadera com muito fundo de verdade, porque ele é, e todos sabem disso, uma
pessoa excepcional, no melhor sentido. Em nada eu menti e espero sempre
conhecer mais dele.
E como eu
estou escrevendo essa série e disse que ia incluir algumas pessoas, hoje é o
meu homenageado. De coração!
John, meu
querido, é uma felicidade saber que a internet e as pessoas em comum que temos
afinidades proporcionaram que eu pudesse lhe conhecer. Você é um amigo, quero
que você considere-se assim, como se nos conhecêssemos há tempos e vidas. Você
é especial, tem uma mente e um coração especial que trabalham em plena sintonia
entre si e com os outros.
John Ramalho é mais ou menos isto tudo, mais mais do que menos.
***
E eu respondi:
Sempre me perguntei se, numa amizade, é possível fugir à pieguice.
Sempre concluí, indignado, que não. A coisa é
inevitável: quando temos amigos, em algum momento seremos obrigados a
demonstrar afeto. Pois não tendo ânimo para pieguices e demonstrações de afeto,
decidi, por bem, não ter amigos. E assim matei dois coelhos numa cajadada só.
Ou, ao menos, tentei.
Curiosamente, como em tudo o mais na vida, também nisso eu fracassei. Não só
não consegui não ter amigos, como também não consegui não me afeiçoar a eles.
Coitados. Pobres coitados dos meus amigos. Coitados, porque meu amor é como um
vírus sorrateiro: intoxica e faz adoecer. Por isso sempre aviso: não ande com o
John, não converse com o John, não dê ideia para o John. O John é perigoso. Ele
pode te fazer pensar. Ele pode te fazer duvidar. Ele pode te ferir, te fazer
desistir ou te fazer tentar. E pior de tudo, ele pode te fazer acreditar. E
nunca, nunquinha, jamais, você irá entender o John, porque ele é tão etéreo
quanto as ideias que professa e tão verdadeiro quanto o éter que os físicos
teorizaram no século XIX.
O John é como o átomo: é divisível e formado mais por vazio que por matéria.
Ele é um nada que existe. John Ramalho é alguma coisa como um fantasma. Sua mãe
sempre lhe disse que, em decorrência de dificuldades pulmonares que teve após o
nascimento, ele "nasceu sem respirar" e, portanto, "nasceu
praticamente morto".
Como vocês
sabem, não é todo mundo que nasce praticamente morto. A maioria, segundo
consta, nasce praticamente vivo. John Ramalho, portanto, é uma raridade. É um
zumbi. Nasceu praticamente morto e viveu ainda mais morto. Sobre o Fernando
Sabino dizem que nasceu homem e morreu menino. Sobre o John Ramalho dirão que
nasceu morrendo e viveu a morte.
Seja como for, apesar dos avisos, há sempre algum tolo, ou tola, que não
escuta. E lá vai, desprevenido ou desprevenida, fazer o pacto com o Fantasma,
com o Zumbi, com a Besta. E acaba descobrindo que o Diabo, apesar de feio, é
menos feio do que parece.
Há gente nesse mundo que tem o coração tão grande e tão generoso que consegue
apaziguar mesmo aqueles que estão destinados ao inferno.
Você é uma dessas pessoas, Carol Sorokin.
Agradeço a amizade, a paciência, a boa prosa e as palavras, tão belas e
divertidas, e que foram muito mais gentis do que a verdade. Não que tenhas
feito mal, afinal, pelos amigos, sempre vale a pena mentir.
A Isa se foi e me deixou cá no peito um vazio. Um sentimento de trouxa. Mas
quer saber? A Isa era legal, mas ela que se foda. Se ela era legal, você é
muito mais.
***
Apesar da boa amizade e do afeto verdadeiro entre nós, pouco tempo depois de escrever isso, Carol desapareceu da minha vida. Sei bem porquê, e não posso dizer que não havia motivo, já que não foi só comigo. Mas ainda não sei se perdoo. Talvez a homenagem fosse a sua forma de despedida...
Fato astrológico curioso é que Carol fazia aniversário apenas um dia antes de mim. Era virginiana. Na verdade: eram; tanto ela quanto a Isa. Mas para a Lady Murphy eu nunca perguntei o dia do aniversário. Ao descobrir que a Isa era virginiana eu soube imediatamente da atração fatal que nos acometeria. Caso descobrisse que ela fazia aniversário no mesmo dia que eu, tal coisa teria um efeito profundo em minha mente, gerando uma ansiedade mística que eu preferia evitar.
Antes do sumiço da Carol, eu e Isa nos afastamos, não por brigas ou rancores, mas por contingências da vida que se colocaram entre nós. Ou, talvez, por conta da minha covardia afetiva; a constante fuga de tudo o que pode me levar a uma grande paixão.
Não foram elas as primeiras moças virginianas de quem eu fui próximo, nem serão as últimas. Na verdade essa tem sido uma ocorrência tão peculiar e recorrente em minha vida que mudou minhas antigas ideias sobre a Astrologia (coisa sobre a qual devo escrever noutra ocasião).
***
Além de mim, e dos amigos já citados, há outra testemunha. O amigo Maycon Antônio, um jovem universitário com boa ambição intelectual, estudante da UFPR e leitor deste blog. Maycon frequentava o meu perfil e lá interagiu com essas pessoas, presenciando muitos dos debates e episódios divertidos.
Registro tudo isso, pois aconteceu; e é bom que saibam que aconteceu. Resta a consciência de que, usando adequadamente a internet, esses encontros de pessoas afins, e de boas confrarias, acontecem. São as nossas pequenas utopias virtuais. Encontros que seriam muito difíceis de acontecer na realidade, mas são possíveis na web.
Deixo, enfim, calorosos abraços aos meus amigos (e beijos e abraços às amigas). Que esta webcrônica sirva como testemunho do meu afeto aos que ficaram e aos que sumiram, onde quer que estejam. Por mim jamais serão esquecidos.
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| Hermes, do escultor Giovanni Bologna |
Disse-me
que apanhara da vida. Tão fortes as pancadas que muito de sua sensibilidade
poética foi perdida. Sem desistir de si, quer agora recuperá-la.
Eis
aí, em resumo, a confidência de um velho amigo, também escritor - outrora
jornalista, cronista, poeta e blogueiro. Amigo que me ensinou coisas
importantes, que me inspirou e ajudou. Camarada irmão de letras, tanto que
ostenta igual sobrenome, companheiro de fé, de dúvida e de voracidade cultural.
No
momento da revelação, fui pego de surpresa, emudeci. Depois pensei, pensei e
pensei. Agora, aqui, mais uma vez expondo minhas reflexões, eu o respondo.
Compreendo-te,
meu bom amigo.
Esse
desarranjo é sempre um risco à espreita. Para superá-lo eu penso que o escritor
deve impor-se uma missão. Deve a todo custo lutar para manter vivo, em si e em
seus leitores, um quixotismo: o desejo de elevar-se pela apreensão criativa das
verdades e das belezas. Precisa ter a consciência que trava uma batalha. E deve
tornar-se sagaz, pois, diante das inversões desta era, necessita disfarçar sua ânsia
pelo superior, sua vontade de virtude e transcendência. Caso diga em público
que busca uma linguagem superior, sagrada e divina, prontamente será condenado
como reacionário. Terá sua honra questionada, será tiranizado, e, por não ver
beleza ou verdade em toscas tentativas de linguagem inventadas ontem, será
considerado um mestre do ódio, tendo a cabeça posta a prêmio. Vemos esse padrão
repetir-se mundo afora.
Como
fosse judeu marrano, o poeta destes tempos, querendo manter viva a sua tradição,
cala e dissimula. Vive numa era em que não é permitido aos homens, nem mesmo
aos poetas, contemplar as almas das criaturas ou espiar as vastidões dos céus,
pois já não existe na imaginação dos mestres coisas como almas ou céus a serem contemplados.
Há apenas matéria, moléculas, átomos, partículas. Tudo é fragmento, nada é
absoluto. Assim dizem os doutos.
O
poeta, tolo e sonhador, querendo-se algo mais do que a soma de seus neurônios,
deve proteger-se. Numa sociedade que rejeita a beleza e a virtude, corre o
risco de ver insuperáveis as suas dores e angústias; caminho que o levará ao
suicídio. Ou, tão terrível quanto: pode testemunhar o clamor, proferido pela
virtual tribuna dos ótimos cidadãos que jamais o conheceram, para que sofra um
covarde apedrejamento público.
Ele
demonstra, portanto, grande sensatez ao procurar resguardar-se. Mas deve tomar
cuidado para não ceder ao desânimo, deixando esmorecer suas inquietações. Seu
desafio, sua luta, é preservar o anseio pelo sublime, a eterna procura da alma
das coisas. Deve cuidar dessa chama quixotesca como quem cuida de um tesouro
precioso e frágil.
Confesso
ao amigo que eu, menos tolo do que pareço, tratei de esconder do mundo o meu
coração romântico, a minha alminha de pequeno poeta - perigosíssima para o
mundo moderno, pois cheia de vontade de Deus e de Beleza.
Defensivo,
pus em torno dela camadas de frieza, mordacidade, deboche e sarcasmo. Acossado
pelo monstro que é a ignorância da vida social neste país, encontrei no
escárnio a minha defesa. Aprendi a ser cruel nos atos e nas palavras,
desmascarador na análise, niilista, simulador do mais profundo desprezo pelo
mundo; sempre pronto a cuspir nas afetações dos pretensiosos e nas
mediocridades dos conformistas.
Fiz
antipático o meu exterior, mas não o fiz por completo. Fui deixando pistas
sutis de que minha rabugem não era tudo, de que havia nas entrelinhas uma filosofia
moral, uma sensibilidade, um anseio de virtude. E mesmo eu me passando por
amargo, houve quem soube decifrar-me o caráter íntimo sensível, e até quem me
acusasse de poeta.
Eu,
evidentemente, negava, e em público negarei sempre essas coisas, pois sei que
há multidões de embrutecidos que odeiam os sensíveis e que se esforçam por
ridicularizá-los. Lembro bem do que ouvi sobre um dos meus primeiros poemas, o
qual, meramente por ser poema, seria, conforme a opinião de um verme, prova de pederastia.
Pois eu pensava, como sempre pensei, que ser poeta significa querer ser como o
rei Davi - o salmista, o guerreiro corajoso, o mulherengo, o canalha assassino, miserável em todos
os seus equívocos, mas, apesar disso, homem nobre e arrependido que pela oração
buscava as virtudes faltantes. Pensava também, como ainda penso, que ser poeta
significa querer ser como Fernando Pessoa, o fidalgo de alma múltipla; fascinante
literato que, sendo humano e usando palavras humanas, falava com a eloquência do
deus Hermes, e que mostrava ao mundo ter não uma alma, nem duas ou três, mas
tantas quanto quisesse.
Busquei
proteger-me de outros vermes falantes antes que obstruíssem meu ingresso na aristocracia
do pensamento e na iniciação ao sacerdócio hermético. Astuto, compreendi que
não poderiam destruir o que não eram capazes de perceber. Tornei-me um eremita;
e, quando em contato com essa gente, fiz-me tóxico como arsênico, o quanto mais
eu pude, para que vissem em mim apenas um desviante louco, agressivo, caótico e
perigoso. As minhas aspirações superiores, a fim de dar-lhes sobrevida, eu tive
de segredar, restringindo-as a confidência de uns poucos amigos. Somente assim logrei
manter vivo esse meu quixotismo, a extraordinária ousadia da pretensão poética.
Por tudo isso, ao meu bom amigo eu aconselho: esconde com maestria a tua sensibilidade. Guarde-a codificada nas suas melhores palavras, faladas nunca, escritas sempre. Põe nelas as mais belas imagens, com seus mais elevados sonhos e utopias. Vai, dia após dia, no silêncio da noite, cultivando a leitura dos grandes poetas, rezando baixinho aos teus deuses, resguardando e nutrindo em segredo a tua sensibilidade.
Cria um sonho impossível, uma utopia romântica, loucura
íntima que te traga imenso prazer no imaginar. E quando notar que a capacidade
de sentimento voltou, continue em segredo. Não faz alarde da tua imaginação
poética, esse grandioso bem que há em ti. Deixa ela protegida, eternizada em
arte nos teus versos ou na tua elaborada prosa, e põe cada uma das tuas obras
de arte, grandes ou pequenas, num destino esotérico; como livro sagrado em baú
enterrado, só disponível aos templários, em caminho só percorrido por gente
estranha que é cada vez mais rara: gente que, como eu e tu, luta não apenas
para ter alma, mas para expressá-la com a eloquência dos deuses.
Pessoa que até a véspera nos tratava amigavelmente. Sorria, falava. Demonstrava interesse em manter conosco a boa relação, e depois surpreendeu virando a casaca: riscou o fósforo do desencontro para acender a dinamite do silêncio. O efeito, uma explosão de energia negativa. Antes, sua conversa receptiva sugeria uma conexão que, no futuro, continuasse tudo constante, daria em agradável amizade.
Ser humano a quem nos abrimos, e a quem procuramos ajudar, aceitando com zelo o autoimposto dever do amigo. Imaginávamos, é claro, ser de confiança. E ao revelarmos elevada disposição afetiva, esperávamos tudo, até que risse de nós, os românticos do afeto; o que não esperávamos nunca é o gratuito desdém, o desprezo, a falta de consideração.
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