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16/07/26

2025 foi um ano difícil




"1933 foi um ano ruim" é o título de um livro de John Fante. Não li o livro e nem nada do Fante, mas sei que eu poderia ter escrito "2025 foi um ano difícil". Um ano tão sinistro na minha vida que eu o comecei excitado por um encontro tarológico com o diabo, ocorrido num pequeno ritual de magia negra, e o terminei internado num hospital. E antes que você me pergunte: não, não era hospital psiquiátrico; e não, eu não pretendo contar nem dar detalhes de tudo que me ocorreu.

Se você frequenta este blog pode ter notado que entre as duas últimas postagens houve um hiato de pouco mais de um ano. Ocorreu contra a minha vontade.

O que posso dizer é que, depois de vários eventos muito ruins (pequenas tragédias), intercalados por outros bons e muito bons (pequenos milagres) a minha vida mudou, e muito. Novas responsabilidades, rotinas e preocupações inviabilizaram a periodicidade que eu mantinha aqui - que, vamos ser sinceros, já não era lá grande coisa.


Antes das mudanças abruptas minha atenção já se voltava ao trabalho noutro site, o que abriga os meus diários, que é um blog privado. Como faço tudo com muita lentidão e preguiça, para dar atenção ao outro, eu deixava este de lado. 


Teve também a questão da crise quanto a minha identidade de escritor. Que tipo de escritor eu sou, que tipo eu quero ser? Quero ganhar prêmios, ficar famoso, aparecer em eventos, ser conhecido no meio? Ou serei um escritor discreto, sem muita ambição? E em qual conteúdo devo focar: memórias, ensaios, artigos, textos didáticos, acadêmicos, crônicas, crítica, contos, romance, traduções, roteiros de cinema? Quero um público maior do que eu mesmo e um punhado de amigos escritores ou não? Vale a pena escrever em português? Devo continuar no blogspot? E os meus temas, quais são? E meus critérios de estilo? E meus mestres? Vale a pena atuar como escritor na era dos modelos de linguagem artificial aparentemente humanizada? Está na hora de publicar um livro?


Para todas essas questões tive de encontrar respostas, tomar decisões, reler coisas que escrevi, estudar meu percurso, conhecer-me, fazer escolhas. 


Ao longo do período não deixei de escrever, nem de ler. Li um bocado. Pratiquei em cadernos e no blog privado, mas não por aqui.


Agora você sabe algo das crises que me fizeram passar um ano sem dar as caras. Eu, quando levo um baque, demoro a me recuperar. Sobrevivo, mas com sequelas. Alguma coisa muda. E sinto, de fato, que alguma coisa importante mudou.


Ainda estou em fase de recuperação. Mas estou voltando. Aos poucos, estou voltando.

23/10/24

Nossa Sinistra Tramóia




Existe um tipo de escritor que não escreve para o público. Um tipo de escritor que escreve apesar do público. Ele escreve primeiro para si mesmo, e escreve não porque quer, mas porque não pode evitar fazê-lo. Escrever é, para ele, um vício degradante, purificador e inevitável.

Ele escreve também para seus amigos, que são escritores, poetas, intelectuais e podem compreendê-lo. Afora esse pequeno grupo de amigos, esse escritor, finalmente, escreve não para todos os leitores, mas para uma minoria de estranhíssimos e inesperados leitores, que, por milagre, podem compreendê-lo. E a minoria da minoria, por milagre ainda maior, parece necessitar de seu discurso - ideia essa que honra e apavora o escritor. Ele, quando desanima, não raro vê-se motivado por leitores que dizem: "Continue, você é bom"; "Não pare de escrever", "Quando você vai escrever sobre aquele assunto?".

Quem e quantos exatamente são os membros dessa cabala? O escritor, na maioria das vezes, não sabe. Sabe, contudo, que se o leem é porque com algo se identificam, ou ao menos reconhecem as mesmas verdades. Isso faz nascer uma ponte, um sentimento comum, uma simpatia. E um pacto se estabelece entre o escritor e seu leitor. Sem pretender, sem jamais terem visto um ao outro, tornam-se cúmplices numa conspiração literária.

Somente em duas áreas é possível ser cúmplice de alguém que nunca vimos: na Espionagem e na Literatura. São, creio eu, coisas assemelhadas. O leitor, afinal, não passa de um grande bisbilhoteiro que sempre quer saber mais, e por isso se mete a ler tudo de interessante que encontra. E o escritor lírico não passa dum grande delator, traidor de si mesmo; espião que na oralidade esconde a sua angústia apenas para melhor revela-la em sua prosa.

São ambos, escritor e leitor, espiões. Um informa o conhecimento secreto e íntimo, e o outro observa, acompanha na surdina; calado toma nota. Por serem espiões, ambos desconfiam um do outro. "Será verdade aquela história que ele contou? Ou será ficção?" Pergunta o leitor. "Será que não vão me delatar à polícia, aos guerreiros da justiça social, ou pior, ao psiquiatra?" Pergunta o escritor. Escritor, você sabe, é sempre meio neurótico, meio paranoico, desregulado. "Será que vão entender que é ironia? Será que posso fazer tal citação? Será que posso usar aquela expressão latina?" Pergunta o escritor, desconfiado do leitor.

É uma relação complicada, estranha, fascinante. Eu, escritor menor, confesso, tenho medo dos leitores. Se este blog chegar aos cem leitores, pararei de escrever aqui. Quanto mais leitores, menor a possibilidade de dizer coisas relevantes e desagradáveis. Quanto mais leitores, menor a maturidade possível ao discurso. Quem fala para multidões fica restrito a falar tolice ou superficialidade. A menos que tenha vocação para mártir, o que não é meu caso.

Essa minoria de leitores da qual falo não constitui um grupo público, mas um grupo privado. Trata-se duma cabala de leitores cuja maioria desconheço, que se fazem anônimos e que não se conhecem entre si. A eles, a vocês, não escrevo como um escritor que se dirige ao público, mas aos privados. Não escrevo para povos ou multidões, escrevo para indivíduos. Escrevo como um espião que se dirige a outros espiões. 

Afinal, como convém à ética do ofício, o bom espião deve revelar-se apenas aos outros espiões; nunca ao público. Sigamos, pois, com a nossa sinistra tramoia. Eu a me delatar em literatura, e você, silenciosamente, a tomar nota de tudo.